sábado, 12 de novembro de 2011

Saudades do que não vivi...


De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de
tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas
mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a
ter vergonha de ser honesto.

Eu tenho saudade do que não vivi. Tenho saudade de lugares onde não fui e
de pessoas que não conheci. Tenho saudade de uma época que não vivenciei,
lembranças de um tempo que mesmo sem fazer parte do meu passado,
marcou presença e deixou legado. Esse tempo, onde a palavra valia mais do
que um contrato, onde a decência era reconhecida pelo olhar, onde as
pessoas não tinham vergonha da honestidade, onde a justiça cega não se
vendia nem esmolava, onde rir não era apenas um direito do rei... Ah, esse
tempo existiu, eu sei. Tempo de caráter, lealdade, escrúpulos. Tempo de
verdade, amizade, respeito ao próximo. Amor ao próximo. Tenho saudade do
tempo em que a justiça era respeitada porque era acreditada. Acima de
tudo. Autoridade máxima do dever. Zeladora dos direitos. Sem vergonha de
ser o que é, de apontar o que fosse, desde que fosse o justo, o correto, o
verdadeiro.

A justiça, cega para um dos dois lados, já não é justiça. Cumpre que
enxergue por igual à direita e à esquerda.

Saudade da justiça imparcial, exata, precisa. Que estava ao lado da direita,
da esquerda, centro ou fundos. Porque o que faz a justiça é o “ser justo”.
Tão simples e tão banal. Tão puro. Saudade da justiça pura, imaculada.
Aquela que não olha a quem nem o rabo de ninguém. A que não olha o bolso
também. Que tanto faz quem dá mais, pode mais, fala mais. Saudade da
justiça capaz. (...) a injustiça, por ínfima que seja a criatura vitimada,
revolta-me, transmuda-me, incendeia-me, roubando-me a tranqüilidade do
coração e a estima pela vida.

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